Leandro Gaertner: a música como herança, travessia e encontro

Há entrevistas que inspiram, e nos lembram por que escolhemos caminhar pela arte, pela educação e pela pesquisa. Conversar com Leandro Gaertner foi entrar nesse território: o da música como herança viva, como prática coletiva e como força capaz de atravessar crises pessoais, históricas e pedagógicas.

Uma infância entre bandas, corais e memória musical

Natural de Gaspar (SC), Leandro é Doutor em Musicologia pela Sorbonne Université, Mestre em Música pela UFPR, especialista em Educação Musical e bacharel em Flauta Transversal pela UNESPAR. Atua como performer, docente, pesquisador e criador, integrando formações como o Borealis Trio e a Banda Mandala Folk. Mas sua história musical começa muito antes dos títulos.

Ao falar da infância, ele desmonta qualquer ideia romântica de “vocação súbita”. “Eu acho que eu tive muita sorte. Eu não tive muita saída… eu fui obrigado a aprender música. Mas foi muito bom”, conta, com humor e lucidez. Neto de maestro e filho de uma maestrina que assumiu o coral histórico da cidade, Leandro cresceu entre ensaios, bandas, igrejas, concertos e desfiles cívicos. “Desde meus 7, 8 anos eu já estava nesse meio”, diz. A música não era escolha isolada: era ambiente, comunidade, continuidade histórica.

Leandro relembra que, aos 15 anos, ouviu de Jean-Pierre Pilatte, professor de flauta da EMBAP, dizer:

“Tu tem que estudar música, tu tem que ser músico” É o que eu mais sei fazer, o que me dá mais segurança, mais prazer”, diz — e essa frase ecoa como uma definição honesta de vocação.

Mandala Folk: música medieval, educação e encantamento

Esse senso de continuidade aparece também quando fala da Banda Mandala Folk, da qual faz parte desde 2019. Um encontro casual — “eu estava saindo do palco e a banda estava entrando” — deu início a uma parceria que renderia um dos projetos educacionais mais marcantes de sua trajetória: a circulação do Carmina Burana e da música medieval em escolas, por meio de um projeto via Lei Rouanet.

O impacto, segundo ele, foi imediato e inesperado. Ao unir história medieval, performance ao vivo, canto, flauta, viela de roda e até beatbox, o grupo construiu pontes improváveis.

Eu brincava com eles falando se acreditavam em viagem no tempo… a música serve como uma nave espacial quase que viaja no tempo. Mas a gente se conecta não somente com a música, com as notas e com os ritmos de outras épocas”, explica. O resultado foi uma reação de encantamento genuíno: jovens atentos, curiosos, fazendo perguntas, pedindo autógrafos. “Tu começa a pensar: alguma coisa tem aí.”

Flutebox: quando a escuta dos alunos transforma a pesquisa

Essa experiência foi decisiva para a conclusão de um projeto antigo: o Método de Flutebox à Brasileira, que Leandro vinha amadurecendo desde 2012, mas havia deixado em suspenso. “Os próprios alunos e a empolgação deles me fizeram avançar nesse método”, afirma, mostrando como, em educação, a influência é sempre de mão dupla.

 Esse semestre agora, o primeiro método a ser lançado aqui no Brasil sobre flutebox. O nome é Método de Flutebox à Brasileira. Eu estou lançando esse método agora, já está pronto.

A travessia do doutorado: quando a música sustenta

Ao falar do período do doutorado na França, Leandro é direto: foi o momento mais difícil. Seis anos de trabalho intenso, incertezas, burocracias e solidão. É nesse contexto que surge uma das memórias mais marcantes de sua trajetória. Em 2009, enquanto aguardava respostas e organizava a documentação, Leandro passou alguns meses em Recife. Em uma visita ao Conservatório Pernambucano de Música, entrou no teatro e se deparou com uma grande roda de choro formada por jovens músicos. O impacto foi imediato. Em silêncio, ao fundo da sala, ele se emocionou profundamente.

Não era apenas a música que o tocava, mas tudo o que ela representava naquele momento: o sentido da pesquisa, a força do choro como tema, sua dimensão coletiva, internacional e atemporal.

“Foi ali que pensei: é isso mesmo. Vai fundo”, recorda. Em um período de dúvidas e ceticismo, a música deixou de ser objeto acadêmico e voltou a ser corpo, afeto e convicção.


Ao final, ao ser convidado a aconselhar jovens artistas, Leandro evita fórmulas prontas. Prefere uma ideia simples e potente: ampliar o olhar. “Ter uma visão mais geral das coisas… saber de história, de outras culturas, outras línguas.” E deixa uma pergunta que funciona quase como manifesto:


“Quando foi a última vez que você fez uma coisa pela primeira vez?”

Talvez seja essa a síntese de sua trajetória: manter vivo o espírito de aprendizagem, permitindo que a música continue sendo não apenas profissão, mas um território vivo de encontro, travessia e reinvenção — para quem toca, para quem escuta e para quem aprende.


Texto: Priscilla Novaes
📍 Entrevista realizada no projeto Cultura & Resiliência — Fevereiro de 2026


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Publicado por Priscilla Rubio Novaes

Priscilla Rubio Novaes é musicista e historiadora com raízes hispano-americanas. Sua música e escrita se entrelaçam para criar uma experiência sensorial única, uma jornada através do tempo, onde história e arte se encontram. Priscilla compartilha suas reflexões em seu blog, explorando a interseção entre história, literatura e arte. Seu desejo é conectar as pessoas ao poder transformador da música e da narrativa, trazendo à tona memórias ancestrais e histórias que ecoam através do tempo.

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