

Uma viagem pela música, pela memória e pelos instrumentos que atravessaram o tempo. Esta história começou antes de Canções do Atlântico. Começou com uma curiosidade: quantas histórias ainda sobrevivem dentro da música que ouvimos?
Ao pesquisar as relações culturais entre a Península Ibérica e o Brasil, comecei a encontrar caminhos que ligavam Portugal, Galícia, Espanha e Brasil. Instrumentos, formas de cantar, sonoridades e tradições que atravessaram séculos, oceanos e fronteiras. Quanto mais eu pesquisava, mais percebia que um instrumento musical nunca é apenas um instrumento. Ele carrega um território. Uma época e uma maneira de fazer música
A pesquisa também me fez perceber que tradição não significa algo congelado no passado. Quando uma prática atravessa fronteiras, ela encontra outras culturas, transforma-se e pode ganhar novas formas de existir. Foi então que comecei a experimentar essas sonoridades nas minhas próprias composições. A pesquisa começou a se transformar em música.

Em 2025, esse desejo de resgate ganhou uma primeira forma em “Brote Outra Vez”. A própria ideia da canção traduzia aquilo que eu vinha buscando: que uma musicalidade, uma poesia e uma memória pudessem voltar a nascer.
A sonoridade trouxe a bandurria, instrumento profundamente associado à tradição musical ibérica, e arranjos mais rústicos das cordas do violão ibérico. A bandurria surgiu na Espanha com registros que remontam à Idade Média (por volta do século XIV). Com a colonização, a bandurria expandiu-se da Espanha para a América Latina (dando origem a variantes locais).
Não era uma tentativa de reproduzir uma música antiga. Era uma experiência de diálogo: Como seria deixar que essas sonoridades antigas encontrassem uma composição nova? Essa pergunta acompanharia todo o caminho que viria.

Dos instrumentos às histórias
A partir daí, comecei a olhar para cada instrumento como uma pequena porta de entrada para a História. Por onde ele passou? Quem o tocou? Como chegou a determinado território? O que aconteceu com sua sonoridade quando encontrou outras culturas? Foi assim que os instrumentos começaram a ocupar um lugar cada vez mais importante dentro do meu processo criativo. A pesquisa deixava de estar apenas nos livros. Ela começava a aparecer nas próprias gravações.
Em “Floresce o Amor”, o tema do renascimento ganhou uma dimensão diferente. A canção fala sobre resiliência — sobre continuar, florescer e encontrar forças para recomeçar. Na instrumentação, entram as flautas, entre elas o tin whistle e a flauta doce barroca, além do alaúde.
E o alaúde abriu mais uma dessas portas. Sua história percorreu diferentes territórios e culturas antes de se tornar parte das tradições musicais europeias. Na Península Ibérica, encontrou novos caminhos e novas formas de ser construído e tocado. Essa trajetória me fez pensar em algo que se repetiria muitas vezes durante a pesquisa: os instrumentos também fazem travessias. Eles passam de uma cultura para outra, são transformados, adaptados e reinterpretados. E continuam falando.
As voltas do alaúde pelas terras ibéricas
Seguir a história do alaúde é acompanhar uma dessas longas viagens culturais. Ao chegar às terras ibéricas, o instrumento passou a fazer parte de um universo musical próprio, encontrando outras cordas, outras formas de composição e outras maneiras de tocar. O que me interessa nessa história não é apenas descobrir “de onde veio” um instrumento. O alaúde tem origens no Oriente Médio e na Pérsia, evoluindo a partir de instrumentos antigos. O instrumento foi introduzido na Península Ibérica por volta dos séculos VII a XIII, durante a expansão e ocupação moura/árabe.

Mares Ancestrais — quando o instrumento encontra a memória
Depois, a pesquisa chegou ao mar. “Mares Ancestrais” nasceu desse encontro entre música e memória das migrações. O Atlântico deixa de ser apenas uma distância entre dois lugares. Ele passa a ser um caminho de circulação de pessoas, culturas e memórias.
Minha própria história familiar também atravessa essa investigação, com raízes ibéricas vindas de diferentes caminhos, entre Granada e Trás-os-Montes. E comecei a pensar nas inúmeras pessoas que fizeram essa mesma grande travessia. Muitos vieram para o Brasil em busca de uma nova vida. Outros foram levados pelas circunstâncias da própria existência. Mas ninguém atravessa um oceano levando apenas uma mala. Leva palavras. Costumes. Histórias. Lembranças. E também música. Foi essa imagem que deu sentido a “Mares Ancestrais”.
Colores del Sol — uma língua que também é memória
Cantar em espanhol foi uma maneira de aproximar a composição das minhas raízes ibéricas e de trazer para o projeto uma dimensão que não poderia ser expressa apenas pela instrumentação. A canção fala de luz, caminhos, misturas e novos horizontes. E novamente aparecem as flautas — tin whistle e flauta doce barroca — criando outra paisagem sonora dentro dessa viagem. Não se trata de voltar ao passado. É trazer algo dele para o presente.
Se algumas memórias chegam através dos instrumentos, outras chegam através das palavras. Por isso, em “Colores del Sol”, escolhi cantar em castelhano. A língua tornou-se parte do próprio resgate.
Mananciais — a gaita atravessa novamente o Atlântico
Enquanto pesquisava referências para os arranjos do álbum, havia um instrumento que voltava repetidamente aos meus pensamentos: a gaita de foles. Mais do que um instrumento, ela é uma testemunha da memória cultural da Península Ibérica. Seu som atravessou séculos, acompanhou peregrinos, marinheiros, festas populares e comunidades inteiras.
Então chegou “Mananciais”. E aqui aconteceu algo especial: a pesquisa encontrou uma tradição musical viva. Um instrumento ou uma melodia podem ser formas de memória. A gaita de foles entrou no projeto através da colaboração com o brilhante Jorge Prada, gaiteiro de El Bierzo.
Eu não queria que a gaita estivesse na gravação apenas para criar uma atmosfera “celta”. Ela precisava ter significado. Uma gaita tocada nas terras bercianas encontrando uma composição criada no Brasil. Uma tradição viva encontrando uma nova canção. Uma pequena travessia dentro de outra travessia. Séculos atrás, uma gaita havia atravessado o Atlântico e sido registrada no contexto do encontro entre portugueses e povos originarios do Brasil. Agora, uma gaita galega atravessava novamente esse oceano — desta vez através da gravação — para participar de uma música brasileira. Ela não estava voltando para um passado imaginário. Estava tocando no presente.

Álbum Canções do Atlântico
A pesquisa chega a um lugar mais íntimo. Depois de seguir instrumentos, idiomas, migrações, territórios e caminhos pelo Atlântico, surge uma pergunta: O que dessas travessias permanece em nós?

Canções do Atlântico nasceu do encontro entre história, memória e canção.
Inspirado pelas rotas que durante séculos uniram povos, línguas e culturas através do oceano, este álbum percorre uma jornada que é ao mesmo tempo coletiva e profundamente pessoal. Em suas melodias ecoam histórias antigas, paisagens marítimas, montanhas, estações e caminhos que atravessam gerações.
O mar surge como símbolo de movimento, encontro e transformação, lembrando que toda jornada exterior também revela um caminho interior. Entre influências celtas, ibéricas e latino-americanas, estas canções celebram a resiliência humana, a força da memória e a beleza de recomeçar. Que esta travessia encontre também o seu coração.

