Entre gaitas e mapas antigos: Gravando Terras Desconhecidas

Hoje iniciamos a gravação de Terras Desconhecidas.
E, confesso, não é apenas uma nova canção: é um reencontro.

Há algo de profundamente simbólico em ouvir, dentro de um estúdio no coração do Brasil, o sopro da gaita de foles ibérica ganhar vida outra vez. Um instrumento que, séculos atrás, já ecoou por estas terras — nos portos, nas vilas recém-formadas, nos sertões ainda sem nome — trazido pelos portugueses e entrelaçado, quase em silêncio, aos cantos e ritmos locais.

Poucos lembram disso. Mas a gaita esteve aqui.

A Terras Desconhecidas nasce como um gesto de resgate e de esperança: unir novamente mundos que um dia estiveram próximos pela música. Um Atlântico sonoro onde o passado não está morto — apenas aguardava ser ouvido de novo.

Quando o mito encontrou a terra

Enquanto gravávamos, eu pensava em algo que sempre me fascinou: o Brasil antes de ser país foi sonho. Muito antes de Cabral, já existia nos mapas medievais da Europa uma ilha misteriosa a oeste da Irlanda: Hy-Brasil, ou Ilha dos Bem-Aventurados. Um lugar envolto em brumas, promessa de felicidade, terra imaginada onde o mundo conhecido terminava.

Entre monstros marinhos e linhas incertas, os cartógrafos desenhavam essa ilha como quem desenha esperança.

Séculos depois, quando os navegadores portugueses avistaram o litoral tropical do Novo Mundo, talvez tenham sentido — mesmo sem saber explicar — que aquela terra exuberante já lhes era familiar. O nome ficou. O mito encontrou a geografia.

Essa origem simbólica do Brasil diz muito sobre quem somos. Nosso nascimento não foi apenas político ou colonial: foi imaginário, espiritual e cultural. Entre o sagrado e o mítico, o país surgiu como fusão de mundos — europeu, indígena, africano — unidos não só pela força, mas também pela convivência, pelo canto, pela escuta.

A música esteve ali desde o início. A Carta de Pero Vaz de Caminha, de 1500, registra um episódio quase poético: um gaiteiro tocando diante dos povos indígenas, e depois dançando com eles, de mãos dadas, ao som da gaita. Um gesto simples — e profundamente simbólico. O som que uniu mundos antes mesmo das palavras.

Sons que não desapareceram

Pesquisadores como José Ramos Tinhorão, Norberto Pablo Cirio e músicos como Carlos Núñez mostram que essa gaita não desapareceu. Ela se misturou. Ressurgiu nas festas, nos rituais, nas mãos do povo. Seu sopro atravessou séculos até se transformar na sanfona, irmã sonora que hoje canta o sertão.

E não foi só o instrumento que viajou. Vieram também os modos musicais medievais, as cantigas galego-portuguesas, o lirismo que Ariano Suassuna reconhecia no repente, no aboio, na viola caipira. O sertão guardou esse eco antigo. Uma saudade que não se explica — apenas se sente.

Sons que não desapareceram

Gravar Terras Desconhecidas é, para mim, continuar essa viagem que nunca terminou. Não uma viagem de conquista, mas de reconexão. Quando a gaita encontra a viola, quando o celta dialoga com o andino, quando o passado sopra no presente, o Atlântico deixa de ser fronteira e se torna espelho.

Em breve, Terras Desconhecidas estará nas plataformas digitais.
Um convite para atravessar fronteiras com o ouvido e com o coração.

Porque, no fundo, somos todos filhos de uma mesma melodia — aquela que atravessou oceanos antes mesmo de se tornar história.


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Publicado por Priscilla Rubio Novaes

Priscilla Rubio Novaes é musicista e historiadora com raízes hispano-americanas. Sua música e escrita se entrelaçam para criar uma experiência sensorial única, uma jornada através do tempo, onde história e arte se encontram. Priscilla compartilha suas reflexões em seu blog, explorando a interseção entre história, literatura e arte. Seu desejo é conectar as pessoas ao poder transformador da música e da narrativa, trazendo à tona memórias ancestrais e histórias que ecoam através do tempo.