Em julho de 2021, comecei a ler as histórias de A Saga dos Groenlandeses e A Saga de Eiríkr Vermelho. Foi como abrir um portal para o Atlântico Norte.
De repente, eu estava diante de Érico Torvaldsson (Eiríkr Þorvaldsson em nórdico antigo), o lendário Erik, o Vermelho, seu filho Leif Erikson e a corajosa Freydis — navegando por mares gelados, em busca de terras que ninguém sabia se realmente existiam.
Por muito tempo todos achavam que Cristóvão Colombo foi o primeiro europeu a chegar à América do Norte em 1492, hoje sabemos que cerca de 500 anos antes, o explorador viking Leif Ericson já havia pisado em suas costas setentrionais. A chegada de Leif Ericson à América do Norte foi o ápice de 200 anos de exploração e colonização viking no Atlântico Norte. O pai de Leif Ericson, Eric, o Vermelho, havia explorado e estabelecido um assentamento na Groenlândia em 985, que perdurou por 500 anos.
Essas narrativas me pegaram de um jeito diferente. Não eram apenas histórias sobre vikings: eram sobre coragem, descoberta e o eterno impulso humano de ir além.
E de algum modo, tudo isso conversa com a música.
A música como bússola
Ao longo da história humana, muitas jornadas foram assim: povos cruzando mares, desertos e montanhas em busca de novas terras, novas possibilidades e, muitas vezes, simplesmente sobrevivência.
E em quase todas essas travessias, a música esteve presente. Canções de marinheiros, cantos de trabalho, melodias levadas na memória por viajantes e imigrantes. A música atravessa fronteiras junto com as pessoas — guardando suas histórias, suas saudades e seus sonhos.
Foi pensando nessas jornadas que nasceram algumas das imagens da minha canção “Terras Desconhecidas”. Talvez a musica também conte o que deu o impulso que guiou aqueles navegadores do norte — o desejo de tocar o mistério, de seguir o som das estrelas.
A música, afinal, é isso: uma forma de navegar. Ela carrega as histórias, os valores e até as feridas de um povo. É a memória viva de quem fomos — e o mapa de quem estamos nos tornando.
Entre mares e raízes
Érik, o Vermelho, foi um comerciante e explorador norueguês do final do século X, famoso por ter fundado o primeiro assentamento europeu na Groenlândia por volta do ano 985.
Seu apelido vinha dos cabelos ruivos — sinal de fogo e bravura.
As sagas islandesas contam que, após ser exilado da Islândia, ele cruzou o mar rumo ao desconhecido e deu nome à nova terra: Grønland, a “Terra Verde”.
Seu filho Leif Erikson seguiria seus passos: explorou o oeste, chegando à América do Norte por volta do ano 1000, em uma região batizada de Vinlândia, “a terra das videiras”.
Ali, entre brumas e mares, o mundo europeu tocou pela primeira vez o continente americano.
Erik morreu nesse mesmo ano, deixando seu filho como sucessor em Brattahlid, seu assentamento na Groenlândia.
Mas o que me fascinou nessas histórias não foi apenas o heroísmo das viagens, e sim o gesto humano que as move: a travessia entre o conhecido e o mistério.
É a mesma travessia que a arte realiza.
Misturando raízes
Quando comecei a explorar minhas próprias origens hispano-americanas e a uni-las à tradição celta, percebi que estava fazendo o mesmo que esses antigos navegantes: cruzando mares entre culturas.
Cada canção é uma travessia. Cada melodia, uma nova terra.
Ler sobre os povos da Galácia, de base celta, que migraram para a Ásia Menor no século III a.C., me fez pensar em como a história da humanidade é uma história de migrações e encontros.
E de como a música, como as sagas, é uma forma de preservar o que não deve ser esquecido.
O eco das antigas vozes
As sagas islandesas eram, no fundo, canções narradas.
Eram histórias passadas de geração em geração, recitadas em longas noites de inverno, como uma forma de manter viva a memória dos antepassados — suas dores, sua fé, sua coragem.
Essa oralidade é o mesmo coração que pulsa na música.
Quando escrevi Terras Desconhecidas, pensei nisso.
Quis capturar essa sensação de atravessar o tempo com a voz, de deixar que o som carregue memórias antigas — como se a música fosse uma embarcação, e cada nota, uma vela aberta ao vento.
A música é uma jornada
A música não é só entretenimento. É uma linguagem, é resistência, é memória.
É o modo mais bonito que o ser humano encontrou de continuar contando sua própria história — mesmo quando as palavras não bastam.
Assim como as sagas preservaram o espírito dos navegadores do norte, a música preserva o espírito de todos nós. Ela nos lembra que ainda estamos navegando — entre mares antigos e melodias novas — em busca de algo que talvez nunca se encontre por completo, mas que sempre vale a travessia. E talvez seja por isso que, a cada nova canção, sinto que continuo viajando.
Com as mesmas perguntas, os mesmos ventos, e o mesmo desejo de descobrir o som de terras desconhecidas.
Conclusão
A história de Erik, o Vermelho, e das sagas islandesas mostra que preservar a memória é preservar a própria humanidade.
Essas histórias cruzaram mil anos porque foram contadas, cantadas e transmitidas — como melodias.
A arte, a música e a palavra são as nossas bússolas: nos lembram quem somos, de onde viemos e para onde seguimos, mesmo quando o horizonte é de névoa.

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2 comentários em “Como as sagas nórdicas entraram em minha nova música.”
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